Em honra à festa da Santa Catarina que se comemora no dia 25 de Novembro, um dia após o dos meus aniversários
Dedicatória:
À memória do meu pai, Cândido Henriques Veiga, que ensinou-me a amar e a ver o lado positivo nas pessoas, nas coisas e na vida e, àà minha mãe Catarina Crisanta Fontes Veiga que, junto com o meu pai, foram os meus melhores contadores de estórias.
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Para o meu filho, Bruno Marques Henriques Veiga que, na hora de fazer o “soninho”, pede-me, sempre, para lhe contar estórias do Baluarte.
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Para os filhos e amigos de Santa Catarina do Fogo.
RECORDAÇÕES, SOLTAS, A PARTIR DE UMA CONVERSA DE BARBEARIA
I PARTE
No outro dia, na barbearia do tio Dadinho, aí em Washington Street, encontrei o Anibal Alves, mais conhecido por Nhô Tónéco, comerciante do Fonte Aleixo de Santa Catarina, do Fogo. Após os cumprimentos, e um curto diálogo como que, de aquecimento, ele pegou, com paixão, a descrever as fronteiras do nóvel Concelho de Santa Catarina dizendo, que do lado da Baleia as duas pontes ( Scoral e Ribeira Nha Lena) aí construidas são de Santa Catarina e, do lado do Saltos, o “madjôn” (fronteira) com Nossa Senhora de Conceição situa-se, para quem vai de Cova Figueira em direcção a S. Filipe, um pouco antes de se chegar à casa do Nhô Trúca, mais precisamente na casa do Miguel que fica em cima da quemada que vai da serra até ao mar. E, claro, como é normal nestas conversas ele, aí resvalou, com redobrada paixão, para o que ele chama de medições de terrenos, quem são os especialistas neste dominio em Santa Catarina e, como é que aprenderam este oficio. Ia ouvindo e tentando prestar a atenção mas, nomes de gente que conheço bem, como o José di Bilótchi, citado como um dos homens que conhece bem essa (hi)estória de medidores de terreno, acabaram por levar-me a questionar afinal quantas figuras viu, o meu Concelho de Santa Catarina do Fogo, nascer (?) e, assim, acabar, também, por transportar-me para um mundo de recordações.
Com um certo prazer, a minha memória foi puxando pelas personagens, uma a uma, e os feitos, as (hi)estórias, ou, os caracteres que lhes garantiram as minhas distinções.
Num ápice e, talvez porque acabara de ouvir o nome de José di Bilótche, - José Vieira Fontes de seu nome próprio - apareceu esse homem de noventa anos de idade, nasceu em 1917, mas, ainda aparentando jovialidade e, possuindo energia o suficiente para ir à reunião do Grupo de Apoio ao Concelho de Santa Catarina ou, procurar sempre os mais novos, nas festas e/ou visitas nas casas mortuárias ou, em casas de familiares e engajar em discussões sobre a politica e a (hi)estória da ilha do Fogo. Admirável! José di Bilótchi é conhecido pelo seu espirito polémico e, por, nas suas discussões, ir ao bolso e retirar daí pedaços de jornais dobrados, bem recortados e bem conservados, para sustentar as suas argumentações.
Com ele, veio o Guilherme Vieira Fontes ou Djémi di Nascimento mais conhecido por Djéme Fontes, (1917-2002), já falecido, mas, homem de “espirito grande”, desproporcional ao local que o viu nascer e ao próprio Cabo Verde que o veio a conhecer. Pois é, Djéme Fontes, também, ele, polémico mas, um pouco mais autoritário, fazia-me lembrar a figura do famoso Sinhô Zinho Malta da novela brasileira “ A Viúva Porcina”, se bem me recordo o nome e, que retrata um dos grandes proprietários do Brasil. Possuidor de um terreno de cultura de vindima em Chã das Caldeiras, Djéme Fontes foi um médio proprietário da ilha do Fogo que, entretanto, pela sua forma de ser – extrovertido e “mãos abertas” - passou a ser conhecido a nivel de Cabo Verde não só, como o primeiro produtor do vinho nacional, o “Manécon”, como, também, aquele homem que convida(va) Governadores, Presidentes da República e Primeiros Ministros para seus hóspedes em sua casa, em Cova Figueira.Lembrei-me menino em Cova Figueira, quando ouvindo o Djéme a contar estórias da América e do seu Presidente, de que ficava convencido que ele, não só conhecia o John Kennedy, como eram amigos pessoais. Lembrei, ainda, de uma vez, em 1992, ele ter-me mandado parar o carro aí na Prainha, para ir cumprimentar o ex-Presidente Aristides Pereira que, a pé, passeava com a mulher tomando a fresca briza do mar, no final de uma tarde. Eu fazia parte do elenco governamental do MPD na altura e fui apanhá-lo em casa da filha, Maria Jesus, para dar-mos uma volta pela Praia, por onde ele estava de passagem por uns dias. Lembrei de ter ficado deslumbrado com a resposta que ele deu-me ao inquirir-lhe, em geito de brincadeira e de provocação, logo após ter cumprimentado o casal Pereira e ter regressado ao carro, ...afinal, o que era aquilo(?) e, então... o apoio a Mascarenhas Monteiro? Já sentado dentro do carro, ele, agarrando o chapéu com a mão esquerda em cima do joelho, levou a mão direita à cabeça, meio calva, escorregando-a da testa pra trás, como que a acentar o cabelo e, respondeu-me com a maior descontração e simplicidade: “’Nááá!!! nôs é amigo! ‘N mandal un monti di uva cando el era Presidente! El é nha amigo e, é un homi bom.”(1)
Como que num passe mágico, acudiu-me a figura do Xáxi de Nascimento, de nome próprio Alexandre Vieira Fontes (1929, 1980), irmão do Djéme Fontes. Ele é (ou, foi) mais lendário no meio Figueirense apesar de ser menos conhecido pelas gerações mais novas, posto que emigrara para Senegal e, depois, para Costa de Marfim nos principios dos anos sessenta do século passado e, de, lá não ter regressado, senão após a independência de Cabo Verde. Contam, os mais velhos, que Xáxi, em desacordo com a justiça, na altura, Portuguesa, por causa de uma briga familiar, “falou contra a nação” e, fugiu para Abidjan, aonde ele veio a filiar-se como um grande militante e apoiante do PAIGC no tempo da luta, pondo a sua casa, naquela cidade, à disposição desse Partido. Ele foi, também, um grande amigo da liberdade e, atesta-o, o facto de ter dado ao seu quarto filho, no ano de 1966, o nome de John Kennedy Fontes. Infelizmente, ele faleceu, em Abidjam, poucos anos após a independência de Cabo Verde, em 1980. Mas, conforme o seu desejo, foi sepultado, pela familia, no cemitério da Cova Figueira, terra que o viu nascer e, que, ele nunca tirou do coração nos longos anos que esteve na emigração. Xáxi di Nascimento tem muitas estórias que os mais velhos que a minha geração, nomeadamente, o meu primo Goméry (1947-1972) costumava contar nas horas de humor. Entretanto, há uma, que o meu irmão Candinho relembra sempre nas ocasiões próprias, que me veio logo à memória junto com a figura de Xáxi. Conta o meu irmão que, por volta de 1976/77, (eu estava na Argélia, a estudar), Xáxi, de visita a Cabo Verde, estava aí, sentado à porta da nossa casa na Rua Madragoa da Praia, junto com o nosso pai, Cândido, a conversarem. Xáxi, então, virou-se para o pápá e disse-lhe: “Cumpadri, nu sta li entre nôs, dixam frabu: es cusa di Unidadi Guiné cu Cabo Verde gô... ca ta da!” Pápá, perguntou-lhe “pamódi, cumpadri?” Xáxi respondeu-lhe: “Ah... cumpadri, li na Cabo Verde, nu ta fazê curral pa guarda animal pa nu podê simia tudo padjigá e, la na Guiné, ês ta simia na curral ês ta larga animal solto pa tudo padjigá...”(2).
Dei comigo a sorrir ao de leve e, então, fingi prestar mais atenção ao nhô Tónéco perguntando-lhe como é que aprenderam afinal esse oficio de medições de terrenos? Eu aprendi com o Néné di nha Branca, respondeu e, prosseguiu: O Artur di Milia aprendeu com o Nhônhô di nhô Antoninho. O Xalé di Nhaí, (1914-1983), ele, não(!), ele tinha boa quarta classe e aprendeu sósinho. Estou a dizer-te estes nomes assim, se um dia resolveres escrever esta (hi)estória, para ai os colocares, retorquiu. O tio Dadinho respondeu: o nome de igreja do Artur di Milia é Artur de Andrade, pai do Manél Socorro. Fiz-lhe sinal com a cabeça que sabia e, ele prosseguiu: O nome de igreja do Nhônhô di nhô Antoninho é Frascisco António Fontes, ele deve ter nascido ai por volta de 1870, porque casou com 25 anos e, foi, quando o meu pai nasceu! O nhô Tónéco tentou esclarecer: Sabes, naquele tempo não havia registro civil; só havia registro na igreja. E tio Dadinho prosseguiu: E o nome de Néné di Nha Branca é Manuel da Veiga. Ele morreu, há uns dois ou três anos, em Cova Figueira , parece-me em 2004. O nhô Tónéco respondeu: o Néné di nha Branca viveu muitos anos, quase quarenta, aqui na América. Quando sentiu que já não podia mais, pediu à filha para o levar para Cova Figueira porque ele queria morrer na sua terra. A filha levou-o e, passados doze dias depois de ter chegado, morreu. Morreu com 98 anos... Desliguei de novo das divagações do Nhô Tónéco e chamei às minhas recordações, as figuras de Santa Catarina.
José di Bilótche, Djémi Fontes e Xáxi de Nascimento, homens de opinião própria, que nunca deixaram suas vidas e destinos serem tricoteados por mãos alheias tendo, pelo contrário, assumido sempre o papel de protagonistas, representam a maneira de ser, o espirito livre e os anseios da plena cidadania das gentes de Santa Catarina do Fogo...
Notas (tradução literal do crioulo para o Português):
(1) Como!!! Nós somos amigos! Mandei-lhe muita uva, quando ele era Presidente. Ele é meu amigo e, é um homem bom.
(2}Estamos a sós compadre, portanto, deixa-me dizer-te: A unidade entre a Guiné e Cabo Verde não vai dar certo, não! Pápá, perguntou-lhe: Porquê? Compadre. Xáxi respondeu-lhe: Ah compadre, nós, em Cabo Verde, fazemos um cerco para guardar os animais para podermos aproveitar todo o mato para semear enquanto que, lá na Guiné, eles abandonam os animais solto pelo mato e semeiam apenas o cerco.
II PARTE
Gente digna, de carácter e de bom humor! Exclamei, quase que em suspiro.
Com naturalidade e, sem esforço da minha parte, a figura do Djonsinho Nhô Chiquinho tal como o conhecia na minha meninice em Cova Figueira -magro, sorridente e pronto para contar mais uma estória – apareceu à minha frente.
João Monteiro Fontes, mais conhecido por Djonsinho Nhô Chiquinho, foi um dos melhores humoristas que tive o privilégio de conhecer. Natural de Cova Figueira, nasceu em 1919 e veio a falecer, em 2002, aqui nos Estados Unidos, para aonde emigrou, já com 57 anos de idade, com toda a sua familia no ano de 1976. Em Cova Figueira, vivia humildemente, passando por necessidades materiais várias mas, possuia dignidade, integridade e sorrisos para distribuir com quantos cruzasse. Djonsinho, um homem franzino e sorridente, detinha um manancial de anedotas e estórias mas, ele previlegiava mais as que diziam respeito a ele e à vida dele. Ele gozava com a vida dele e com as necessidades por que passava, o que é próprio de um homem superior, como ele o foi. Para o meu deleite recordei duas dessas estórias, que passo a registar para o caro leitor e, que ele próprio relatava aos amigos e conhecidos entrecortados pelas suas gargalhadas estridentes.
Contava, quando vivia em Cova Figueira, que um dia embrulhou-se com a mulher, Quina d’Inês, (que é muito mais forte do que ele) em luta. E, que, não sabe como, o que é certo é que tropeçou numa mala e, caiu e, a mulher caiu-lhe em cima e, gritou: “ACADIRÊÊÊÊ!!! E, que, então, ele voltou para a mulher e disse-lhe: “Pa cusé bu sta grita acadirêêê... si bu tênê rê di baxo?” (3).
Esta outra, foi já nos Estados Unidos a viver e... com o seu ar sorridente, de sempre, contava que, após um ano nesta terra, o filho mais velho o Orlando levou-o ao hospital para uma consulta. No fim, o Orlando, a pedido do Doutor, traduziu-lhe em crioulo que o Doutor tinha dito que ele tinha açucar no sangue. Então, quando regressou à casa, foi logo ter com a mulher, Quina, para lhe dar a noticia: “Quina, odjâ cumo ês terra ê abençoado! Na Cabo Verde, ‘n ta djobêa açucar pa tudo banda pam pôba na café, ‘n ca ta atchá. Ali nês terra, cu apenas um ano, ‘n tênê açucar na sangui. Mi, dján sôna!”(4)
Em cascata e, como numa fita de cinema, apareceram mais duas figuras ligadas ao humor; o António Joaquim Fontes, tio Antoninho, mais conhecido por “Lópa” (1929-2002) e, o Antoninho d’Inês, de seu nome próprio António da Veiga (1911-1997), conhecido, também, por P A I. Ambos falecidos aqui nos Estados Unidos, eles são sempre chamados ou relembrados quando nós que os conhecemos vemos o famoso actor Mexicano Cantinflas a actuar ou, então, o não menos famoso Dom Francisco do Sábado Gigante do canal da TV, em Espanhol, a UNIVISION.
O Antoninho d’Inês era fisicamente aparecido com o Dom Francisco e, também, tinham, nos gestos e nas marotices com as coisas da vida e, em especial, com as mulheres, uma semelhança admirável. Nenhuma mulher e, não só, levava a sério uma conversa com o Antoninho d’Inês. O semblante e o tom da voz dele davam sempre a impressão, mesmo quando o assunto era sério, de que ele andava a conquistar, a brincar ou a zombar. Era a forma nata, dele... Aí, nos finais dos anos setenta e, durante os anos oitenta, sempre que ouvia falar do PAIGC ou, simplesmente, Partido, ele virava e, apontando com o dedo indicator para o peito do interlocutor , dizia: “PAIGerBÓ”. O, que, valeu-lhe o nominho de P A I. E, com aquele ar de... zombando, retrucava sempre, quando se lhe ameaçava de que a milicia e o tribunal popular lhe iam prender: “Mi ê Mercáno; ês ca podê cú mi” (5).
O tio Antoninho (Lópa) era práticamente o sósia do Cantinflas tanto nos traços fisicos, como nos gestos com as mãos, nos tics no rosto e, sobretudo, nos exageros. A minha irmã Estefânia costuma relembrar, quando falamos do tio Antoninho, (Lópa ), que, depois de adulta, foi ver o filme de Orféu Negro, na Praia. E, que, o filme que viu tinha muito pouco a ver com o filme de Orféu Negro que o tio Antoninho viu em Dakar e, que, nos tinha contado num dos serões que costumavamos ter, quando meninos, em casa dos avós Quina e Xalé na Cova Figueira. Ela diz que ficou mesmo decepcionada com o filme e, que, prefere o Orféu Negro do tio Antoninho, porque tinha muito mais estórias e mais sal...
Fiquei a pensar nestas três personagens: Djonzinho Nhô Chiquinho, Antoninho d’Inês e tio Antoninho. Três figuras possuidoras de talentos natos e, que, bem poderiam ter conquistado multidões e feito milhões, se o destino não lhes tivesse pregado a partida de lhes ter reservado a América, que tanto sabe apreciar os seus dotes, como leito da velhice e da partida para a eternidade, em vez de berço de nascimento e de criação.
Sim, pode até ter sido uma partida do destino! Mas, que seria de nós em Santa Catarina do Fogo sem essas figuras, de espiritos livres e autênticos fazedores de bom humor? Quem mais nos teria dado lições tão preciosas sobre como ser integro, como ser digno, como ser livre, como ser criativo e como... sermos nós? Gente vaidosa e orgulhosa por ter-se feita a si própria; gente lutadora; gente trabalhadora; gente empreendedora; gente honesta e de respeito; gente de carácter e que não se deixa comprar; gente de uma só palavra; gente de cara levantada; enfim, gente que quer ser gente, simplesmente. Que desçam os espiritos dos nossos antepassados e nos ajudem no resgate desses valores, vezes sem conta vilipendiados pela cultura da mediocridade e do desenrasque, pelo aniquelamento do que é óptimo, melhor e maior versus pelo nivelamento por baixo e, pela luta desenfreada pelo poder... Que desçam pois!
Notas (tradução literal do crioulo para o Português):
(3). Aqui d’el Rei!!! E, então, ele voltou para a mulher e disse-lhe: Para que é que estás a gritar aqui d’el rei, se tens o rei por baixo?
(4) Quina, olha o quão abençoado é esta terra! Em Cabo Verde, durante a minha vida toda, eu não tinha açúcar para pôr no café. Com apenas um ano a viver nesta terra o Dr. disse ao Orlando para me dizer em crioulo que já tenho açúcar no sangue. Já sou um abençoado!
(5) Eu sou cidadão Americano. Eles não podem fazer nada comigo.
Cláudio A. Henriques Veiga, cveiga2@hotmail.com , Boston.
III PARTE
Ouvia, sem prestar muita atenção, o NTónéco a falar das terras do meu avô Xalé, dos “madjons” da Enseada Lena e o tio Dadinho a responder. Então, com os dois a dialogar, senti-me mais livre e dei asas às minhas recordações com o Vovó Xalé.
Vovó Xalé ou Xalé di Mamá, de seu nome próprio Joaquim Vieira Fontes nasceu em 1895 e faleceu em 1982. Casado com Matilde Monteiro Fontes, mais conhecida por Quina, (1901-1981), foi o maior comerciante da freguesia de Santa Catarina, dos anos vinte a cinquenta do século passado, chegando a possuir nove lojas de uma assentada e a importar directamente da Europa - Alemanha e Inglaterra - nos anos trinta, para o porto de Alcatraz, na ilha do Fogo. Sobram, ainda hoje, ruínas de armazéns do Vovó Xalé nesse porto, como que a testemunhar o seu empreendedorismo e a sua coragem. Foi, também, um dos maiores proprietrios, agricultor e criador de animais da freguesia. O extermínio ou desaparecimento de certos animais a que se chegou hoje em Santa Catarina do Fogo, torna-se difícil de acreditar porque, ainda na minha meninice, nos princípios dos anos sessenta, fui testemunha do fabrico de cobertores (mantas) com a lã dos carneiros do Vovó Xalé. Estas mantas, diga-se de passagem, eram bem apreciadas porque Santa Catarina do Fogo é uma região fria, relativamente ao clima geral de Cabo Verde. No entanto, as estruturas arcaicas, feudais e rígidas da sociedade foguense que não facilitaram o desabrochar do capitalismo, a crise de quarenta, a seca do final dos anos sessenta e seguintes, e a emigração, concorreram para levar, praticamente, ao estado da destruição, o pequeno reino que Vovó Xalé, por mérito próprio, soube construir. Ou melhor, convém, talvez, realçar que, tal como para os outros proprietrios e comerciantes da ilha do Fogo, o reino de Vovó Xalé foi vítima, em particular, da predominância da parceria nas relações socio-económicas da ilha que emperrou e vem continuando a emperrar, a monetarização da sua economia, a circulação do dinheiro entre os seus agentes económicos e a introdução de novas técnicas e/ou tecnologias na agricultura. Vóvó Xalé deixou, todavia, herança, em terras e outras propriedades, que est ainda por ser dividida, o que é sintomtico da persistência dessas relações.
Homem cantado por cantadeiras de “ratórco”: “Xalé di Mm, di Cova Figueira; Mudjêr qui spibu, ta ‘nguli cuspínhu; Sê spibu di frenti, ê ca tem qui pô; Sê spibu di trs, ê ca tem qui trâ....”(6 CD de Linkin Nona), Vovó Xalé não teve fama de mulherengo e, pode-se até dizer, destacou-se de uma tendência cabo-verdiana dos homens do seu tempo, por não ter tido filhos fora do casamento. Homem de família, teve nove filhos com a mulher que escolheu para juntar os troços na vida. E também, na morte! Pois, após a morte da mulher, que foi a enterrar em Cova Figueira, recusou determinantemente a regressar para América com a justificação de que esperava também o seu dia para ser enterrado junto daquela que escolheu para sua esposa e companheira durante a vida. Morreu um ano e poucos meses depois e, desde então, jazem juntos na mesma campa, no cemitério da Cova Figueira.
Vovó Xalé foi, também, conhecido por generoso e bondoso tendo ajudado a muitos nas horas mais difíceis. Deixou marcas indeléveis nas pessoas (muitos deles “afilhados”, como ele os chamavam) que o procuravam, para um simples conselho muitas das vezes, e nos netos, (teve cerca de meia centena) e, em especial, aos meus primos Amaral e Alcides que com ele privaram praticamente até a idade adulta.
Recordei, com saudade, alguns ditados que ele usava, quando eu era ainda um menino, para corrigir os primos ja quase adultos: “Distância di obido pa ôdjo ê di apenas quatro dedos; Si bu ca obí, bu ta odjâ” (7). Ou, então: “Arranjar Maria não é nada, tratar Maria é que é tudo!” Ou, ainda: Un ê pôco, dôs ê tchêu (8). São frases conhecidas mas, que Vovó Xalé, pela sua experiência, sabia, quando bem empregues, de seu grande efeito na educação de crianças porque carregadas de simbologia e, em forma de equação, despertadoras de curiosidade.
Não pude deixar de recordar a Vovó di Baluarte.
Maria Medina Henriques Veiga, mais conhecida por Mam di Nhô Cândido, ou Vovó di Baluarte, nasceu em 1896 e faleceu em 1978. Apesar de ter convivido relativamente pouco tempo com ela, foi, contudo, a figura de mulher que mais me marcou na minha vida toda. Para o meu regozijo, tenho encontrado outras pessoas, inclusivamente, não familiares, que me revelaram a mesma opinião. Senhora distinta e respeitada pela sociedade era uma pessoa afvel, carinhosa, e generosa. Ela e o marido Pedro Veiga ou Pedro Nha Socorro, ou Pap di Baluarte como lhe chamvamos, (1896-1982), moravam em Baluarte, localidade situado a cerca de um a dois quilómetros de Cova Figueira. Um lugar que, para nós, os netos que ao todo somamos cerca de meia centena, era um pequeno paraíso na terra e, hoje, é um local para conservar como um bem comum e testemunho das nossas mais belas recordações de infância e adolescência. Com Vovó viva, Baluarte era um autêntico lugar de encontro, reunião e convivência de familiares e amigos. Havia tempos, especialmente, durante as férias escolares e nas “azguas” que, em grupo de cinco, dez ou até de vinte chegvamos a Baluarte praticamente à hora das refeições ou j à noitinha. Vovó tinha sempre a porta aberta e o acolhimento de mãe - sentíamos mais do que em casa. Ainda hoje, guardo saudosamente a recordação do calor da sua bênção, sempre com um beijo na testa e a admiração de como ela fazia para dar-nos a todos de comer. Os manjares da Vovó eram os mais gostosos que alguma vez experimentara, fosse a cachupa, o xérén, a djagacida, o cozido de carne acompanhado de couve e mandioca, o cúscús com leite ou, então, as suas famosas especialidades em pastéis de milho, pastéis de batata doce os quais demos o nome de “batanguinha di Baluarte” e, o seu não menos famoso, cúscús di mandioca. Desconheço frequentador de Baluarte que não tenha apreciado e não tenha elogiado a “comida di Baluarte”. E devo lembrar aqui o nome de duas pessoas que muito ajudavam a Vovó na preparação destes manjares, a Ana e a Noquinha.
Todavia, essa admiração pela Vovó di Baluarte estende-se a outras facetas que enformavam o carcter dela: a justeza e as boas maneiras. Lembrei-me de uma vez em que soubemos, em Cova Figueira, j com o manto da noite a cair sobre a tarde, que a Lena, a Idil e a Lidiana estavam em Baluarte, acabadas de chegar da Bila. Eram elas três lindas menininhas, filhas da Méry di Féfa, que também gostavam de passar as suas férias em Baluarte e pelas quais todos nós nutríamos paixões platónicas. Então, foi uma correria, com os primos mais velhos a quererem fazer-nos voltar para casa, acabamos por desembocar, uns atras dos outros, em número de dez a quinze ao todo, em Baluarte. Aí, os irmãos e primos mais velhos continuaram a tentar escorraçar os mais novos, mandando-nos regressar para a casa em Cova Figueira. Vovó apercebeu-se da manobra e fez logo a sua justiça: “A ter de regressar alguém para Cova Figueira, que sejam os mais velhos! ... Mas... não, não é preciso irem!” Acalmou-nos: “Podem ficar... todos! Mas, sem fazer muito barulho!”. Não raras vezes e, sobretudo, à hora das refeições, na mesa, ao lado esquerdo de Pap di Baluarte, onde se sentava Vovó di Baluarte, com paciência, ensinava-nos como estar à mesa, pegar o garfo ou o copo ou como servir-se, ou que mentir é feio e que não se deve falar mal de alguém que não esteja presente ou, ainda, que devemos ser solidrios entre nós, “um por todos, todos por um”, etc, etc... O que era diferente nela é que ela respeitava-nos a nós crianças conversando connosco como se fossemos adultos – com paciência, dando atenção mas, sem fingimentos, com amor, mas sem falsos mimos, e com respeito, mas sem intimidar...
Embalado pela recordação de uma figura com uma personalidade tão ímpar que soube conquistar a estima, o respeito e a admiração dos que privaram com ela, apareceram, todas de uma vez, vrias outras figuras que conquistaram o respeito pela autoridade que exerceram sobre a sociedade Santa Catarinense. Cristiano nhô Lino (1877-1973), Pedro nhô Lino (1898-1975), Quinquin de Carolina (1910-1948), Artur di Venâncio, Djédjé di Santa (1912-1997), Yay di Maria (1913-2005), Antoninho Nhô Lópi (1871-1966), Semeano Montrond (?-1981), Amaro Montrond (?-1996), Pedrinho Nha Sandjon (1919-1980), Djédjé di Pedro (1919-1996), Lim di Sandjon (1913-1997), Néné di Nica (1914-2005), Manél Reis Di César, Néné di Baí (1906-1982), Josésin di Pépa (1931-1997), Augusto Nhamina, Djédjé di Cum (1923-1975), Djoné di Arséni, entre outros senhores, são figuras que se impuseram e influenciaram positivamente os Catarinenses do Fogo, nas décadas de quarenta, até princípios dos anos setenta do século passado. Uns foram regedores ou figuras ligadas ao regedor, com poderes delegados pela autoridade Municipal e Administrativa da ilha, na altura. Outros foram proprietrios de terras. Estiveram ligados, ou não, à autoridade daquele tempo mas, são figuras que, pela postura exemplar que tiveram, em termos de comportamento na família e na sociedade, granjearam um alto nível de estatura moral e influência positiva da população de Santa Catarina. Exerciam a autoridade pública, fazendo justiça local, mas, também, não se coibiram de educar, chamar a atenção e transmitir os bons usos e costumes e as boas maneiras, especialmente, aos mais novos, para uma vida regrada em sociedade. São figuras que marcaram indelevelmente, e pela positiva, o carcter e a vida social dos santacatarinenses, assim o reconheci, quase que em suspiros, e concluí: Ter sido, talvez, o melhor modelo de administração, com mais impacto positivo na convivência comum, no respeito pelo outro, em especial os mais velhos, e no respeito à propriedade alheia, que a sociedade Santa Catarinense conheceu.
De repente acudiram às minhas recordações o Béto Tarêxa, do seu nome de igreja Adelino Andrade e o Francisco Fernandes Lopes, mais conhecido por Francisco di Maninha; o primeiro faleceu no princípio da década de setenta e, o secundo, na década de oitenta. Eles foram dois funcionrios públicos locais que bem exemplificam a boa organização da sociedade santacatarinense, nas décadas de quarenta a setenta. O primeiro tinha por tarefa de manter as ruas de Cova Figueira limpas e o segundo era encarregado da venda de gua às populações, da guarda dos animais presos por invasão à propriedade alheia e da cobrança das respectivas multas e/ou coimas. Foram duas figuras da minha meninice que, pelo zelo que punham no cumprimento das suas missões, marcaram-me com as melhores referências que podia ter de bons profissionais e de bons servidores públicos. Hoje, com os problemas de higiene pública e de justiça que temos um pouco por todo Cabo Verde, recordo, com admiração, não só o empenho no cumprimento da missão, por parte dessas figuras mas recordo, sobretudo, que uma povoação rural, constituída por membros com apertados laços familiares, como foi a Cova Figueira, soube gerir, com asseio, a sua ruralidade, e com justiça, os seus conflitos de propriedade.
Notas:
(6) CD de Linkin Nóna, música Talaia Baxo, interpretado por Quirino do Canto
(7) A distância que vai do ouvido até o olho é de apenas quatro dedos; Se não ouvires hs de ver.
(8) Um é pouco, dois são muitos.
IV PARTE
Encontrava-me quase em estado de letargia, absorvido que estava pelas saudosas recordações de personagens e histórias que marcaram determinantemente várias gerações da sociedade santacatarinense com os princípios de coragem e da procura constante do melhor e, com os valores de família, do respeito e da honestidade, ouvi, fundo, uma música de violino entrando pela porta dentro da barbearia. Curioso, pelo ritmo que não me parecia desconhecido, levantei-me, agarrei a porta, não deixando que o cliente que ia de saída a fechasse e, olhei para o carro parado na luz vermelha, à frente da barbearia do tio Dadinho, de onde vinha aquele som de... morna! Não, não reconheci a pessoa que ia a conduzir mas, pelo aspecto físico poderia ser do Fogo ou da Brava, se bem que fiquei mais convencido de se tratar de alguém do Fogo porque a morna que saia do carro era instrumental, tocada ao estilo de violino da ilha do Fogo. Fechei a porta e regressei ao meu lugar. Antes de me sentar, uma chuva de figuras e de histórias preencheram as minhas recordações.
Ntóni di Néco, Dénda, (1933 - 2007), Frank Tina, (1927 - 2006), Manêzinho di Nhabina, conhecido por Scáda, (1928 - 2004), Arlindo Nhánha, (1935 - 2004), e Frank Lotinha, músicos que marcaram a sociedade Catarinense e, em especial, Figueirense da minha meninice, na década de sessenta, disseram presente. A precedê-los, a minha recordação trouxe, todavia, o grupo do Cândido Mámá di nhô Cândido, (1918 - 1999), no violino, Cantilhano Noquinha, (1918 - 1996), na viola, Moisés de Lúlú, (1919 - 1996), na viola, Tio Djédjé, (1919 - 1996), na viola, Tio Parromano na viola e, também, como exímio intérprete de mornas, Tio Pedrinho, (1923 - 1999), no violino, e, Tio Xalêzinho, (1928 - 2005), no violino. Eles são mencionados como os animadores das festas de Cova Figueira e de toda a freguesia de Santa Catarina, nos finais dos idos anos trinta, até à primeira metade da década de cinquenta do século passado. Recordei o tempo em que eu era menino, junto com os meus irmãos, e a minha mãe que costumava contar-nos estórias, à noite, com um ar saudoso e olhos a brilhar, à luz do candeeiro, de como o meu pai fazia o violino “chorar” nas festas desse tempo, ora em casa da Nhánha Nhô Cândido (1901 - 1951), ora em casa da Nhánha Bia ou, ainda, em casa da Vina Santa (1899-1981) com o Administrador da ilha como convidado de honra. Ela contava, ainda, das serenatas que se faziam em Baluarte, da bela voz que tinha o Tio Parromano e, até, cantava para nós a morna “Moreninha sem par” ou, “Pombinha esquiva” ou, ainda a “Fodegosa”... que o Tio Parromano trouxe da Praia, quando regressou da tropa, no ano de 1943. Já sentado, relembrando este cenário, repetidas vezes vivido na minha infância, cogitei que, se calhar, fora naqueles momentos de expressão de cultura e de amor que a minha mãe plantou fundo as raízes da minha caboverdianidade...
Depois do grupo do Cândido, Moisés e Cantilhano Noquinha, a minha recordação trouxe de novo o grupo do Ntóni di Néco, Dénda e companhia e os grandes marcos que imprimiram na música catarinense nos anos sessenta. Recordei que aí, pelo início da década de sessenta, por volta de 1962, período marcado pelo início das secas que vieram a transformar todo Cabo Verde, o grupo ganhou notoriedade e, elevou Santa Catarina a um outro patamar, ao ganhar um concurso de música a nível da ilha, organizado em S. Filipe, com a coladeira “Agú tem, agú ca tem”. Esta coladeira, compositada pelo Pedro Fonseca Fontes, mais conhecido por Pedrinho di Vitalina, e orquestrada pelo Dénda, uma sátira ao poder de então que não conseguia resolver os problemas na canalização já desgastada da água para Cova Figueira, chegou de ser tocada na estação de rádio da Praia para o auditório de todo o Arquipélago. Recordei ainda que, na mesma altura, o grupo passou a divulgar mais uma outra canção que enchia de orgulho os Figueirenses porque toda ela é um hino a Cova Figueira, em língua Portuguesa, e que foi compositada no início dos anos cinquenta, (50/52), também, pelo Pedro Fonseca Fontes. O nome desta canção é “ Cova Figueira, povoação popular”. Por fim, recordei que, por volta de 1968, num momento de inspiração, aí, na “Cruz di Maria da Cruz”, de onde se vê todo o “mar di casinha” até a linha do horizonte passando pela ilha de Santiago, Frank Lotinha, com a dor da saudade a apertar pela partida para América que se aproximava, compõe e musicalisa os versos de uma das mais lindas mornas daquele tempo e que veio a tornar-se, sobretudo, a partir do início dos anos setenta, uma sina dos catarinenses: “América ê nha terra longe” (9). Interpretada, pelo grupo do Ntóni di Néco e do Dénda e pela bela voz do Eurico Veiga, mais conhecido por Eurico di Nênêzinha, e gravada em cassete, esta morna, América ê nha terra longe, fez parte das preferências dos santacarinenses, nos bailes e nas serenatas, por largos tempos. Lembrei-me, com saudades do tio Djédjé, José Henriques Veiga (1919 - 1996), de seu nome próprio, que, com o sorriso estampado no rosto nos fazia ouvir, a mim e aos meus irmãos, a cassete no seu mini-autocarro em que nos transportava da Bila para Cova Figueira, quando íamos de férias da Praia, por aquelas alturas. Lembrei-me de ter pensado, naquele tempo, que ele, o meu tio, ao passar para nós a cassete com músicos só da Cova Figueira, queria passar-nos o testemunho da nossa capacidade e do nosso orgulho enquanto comunidade.
Ntóni di Néco, um grande violinista, e o Frank Lotinha, um exímio tocador do violão e também compositor, são os dois únicos sobreviventes deste grupo.
O Ntóni di Néco encontra-se emigrado nos Estados Unidos com toda a família, desde 1976. Continua igual a si próprio e é um animador frequente das noites cabo-verdianas, nos restaurantes criôlos de Brockton, fazendo-se acompanhar, ora pelos filhos Láu e Nhônhô e pelo neto Zé di Láu, ora por Mário di Vera e por João de Deus di Artinina, dois outros rapazes filhos de Cova Figueira.
O Frank Lotinha regressou a viver em Maria da Cruz, Cova Figueira, deixando para trás família e amigos, para reviver o seu “amor-perfeito” roubado pelos anos passados na emigração. Diz-se por aí que arranjou novos amigos em Maria da Cruz e, também, uma nova cretchêu que até já lhe deu novos filhos mas que ainda hoje, a Cruz di Maria da Cruz, seu local predilecto de inspiração, dá-lhe aquele aperto de sodádi e um nó na garganta que só acabam com o choro...
é a saudade que já não tem poiso é, isto mesmo!!! Murmurei, pensando no Frank Lotinha. É o sonho guardado, recalcado e não realizado...é a dor do passado e, a responsabilidade do presente... é a constante separação de familiares e de amigos... é o desencontro com a realidade... é a triste sina do emigrante... é a nossa sorte; ter saudades...saudades do passado; saudades do presente e do futuro; saudades de lugares conhecidos e imaginados; saudades do amor perdido; saudades dos amigos; saudades dos que nos deixaram; saudades, saudades, saudades sem poiso! Será castigo ou previlégio?
Nota:
(9) Morna; América ê nha terra longi. Composição de Frank Lotinha (letra recordada com a ajuda do Amaral Veiga).
Nun tardinha na sol di calada,
Ami na cruz di Maria da Cruz
‘n spia pa mar di casinha, sodadi
Pertam, quêl fazem tchora
América ê nha terra longi
Cabo Verde ê nha amor-perfeito
Terra nha mãe, nha crêtchêu, nhas amigos
Qui ta fazem tchora, sodadi
Son dês morna ê un cavaquinho
Trazen um violão tão perdido
Frank na Mérca ta tchora sodadi
Cu sperança d’el torna volta
América ê nha terra longi
Cabo Verde ê nha amor-perfeito
Terra nha mãe, nha crêtchêu, nhas amigos
Qui ta fazem tchora sodádi
Cláudio A. Henriques Veiga, cveiga2@hotmail.com , Boston.
IV.2 PARTE
Ouvi, então, o tio Dadinho a dizer ao NTónéco que “os valores matriciais que estão a dar às propriedades em Cova Figueira, são muito elevados”...e NTónéco a responder que... “esses meninos de agora que andam a trabalhar nestas coisas não sabem como fazer esse trabalho”... E, de repente, e a propósito de meninos, como que acordei das minhas divagações poéticas sobre saudade sem poiso e, então, acudiu-me a figura do Amadeus Fontes.
Um jovem de 45 anos de idade, Amadeus Fontes deve, por mérito próprio, aparecer na lista das figuras não só de Santa Catarina e do Fogo, mas de todo o Cabo Verde, como um dos grandes do nosso mundo artístico. Filho de Cova Figueira, mais propriamente de Frank di Tina que foi, também, tocador, Amadeus encontra-se emigrado nos Estados Unidos desde 1984. É com o seu grupo um dos grandes animadores dos bailes “criôlos” e que integra, entre outros, o violinista Linkin de Nóna e é, também, um dos fazedores das noites cabo-verdianas, pelos restaurantes “criôlos”, em Boston, nos fins-de-semana.
Amadeus Fontes é um artista versátil: é compositor, faz arranjos musicais e interpreta, quer como instrumentista (é multi-instrumentista), quer como cantor, para além de ter um pequeno studio de produção. Contudo, é antes de mais um trovador, das pessoas, da vida de Cova Figueira e do mundo. Duas belas composições dele, muito apreciadas a nível nacional – Antoninho Bódi, interpretado por Djosinha e “Mar qui panham nha bóti”ou (Michell), cantado pelo próprio - são o retrato fiel de estórias vividas em Cova Figueira, com personagens reais e, talvez por isso, de selecção obrigatória nos bailes dos Figueirenses, aqui na América.
“Antoninho Bódi”, conta a estória, passada em 1983, de uma guerra, motivada por traição amorosa, envolvendo Antoninho Bódi, Maninha e Náná di Tchico Nhaí, em que, Pinto Veiga, na qualidade de juiz do tribunal popular, é chamado a fazer justiça. “Mar qui panham nha bóti”, conta a estória triste de Michell, um rapaz de 20 anos que se afogou e morreu no mar, na baía di Fajã, em 2006, ao ir apanhar a lagosta para festejar com a noiva, que tinha ido da América para ir buscá-lo.
Amadeus Fontes é ainda compositor de vários outros temas, como: “Cumpádri Francisco” (1984); “Pádri qui casam” (1991); “Ana cú Maria” (1996); todos interpretados por Bana, sendo o primeiro e o terceiro, também, retratos de estórias reais passadas em Cova Figueira. Tem ainda composições em carteira como a bandeira “Grandéza di Djarfogo” (1999) que estava previsto ser gravada pelo malogrado Ildo Lobo; “Cabra di Rótcha” (2000); “Telefone, telemóvel, telecriolo” (2004), os quais Amadeus pensa lançar no seu próximo CD. Fruto da tradição musical da sociedade catarinense, Amadeus Fontes é, agora, o seu expoente máximo a nível nacional. Estilizou o ritmo das mornas e coladeiras da região catarinense do Fogo e vem fazendo o mesmo com o ritmo das suas bandeiras. Acreditamos, pois, pelos pergaminhos artísticos a que já nos habituou, que muito mais fará para a música de Santa Catarina, continuando a cantar e a retratar os catarinenses no seu ritmo e lá onde estiverem.
A figura de trovador de Amadeus Fontes trouxe-me as imagens de Ana Mamá di Luísa, Xóti Mané di Xêpa, Nênê di Arcanja, Mamá di Mília, Maria di Dina e Lim di Dimingo, figuras ligadas às festas das bandeiras, em Santa Catarina, nos anos cinquenta e sessenta. Acudiram-me recordações da minha meninice e contos da minha mãe, de que a Avó Quina, tinha a tradição de festejar todos os anos o San Djôn e o San Pedro, nos dias 24 e 28 de Junho, fazendo dias seguidos de festas que, às vezes, duravam uma semana ou mais, e envolvia a chamada matança de animais – porcos, carneiros, cabritos, cabras, vaca - muita comida e muito grogue. Com a morte do filho Guíguí, (1937 - 1962), em acidente de moto em S.Vicente, precisamente no dia de San Djôn, ela deixou definitivamente de festejar as ditas bandeiras para passar a realizar missa em memória do defunto durante os sete anos seguintes. Assim, as bandeiras de San Djôn e de San Pedro deixaram de ser festejadas em Cova Figueira durante todo esse tempo e fiquei sem memória se depois foram retomadas por outras famílias. Recordei a festa de Santo António que era tradicionalmente festejada em Baluarte pela Julieta.
Lembrei-me de algo que me fez esboçar um sorriso... Na minha meninice, cheguei a pensar que só a Julieta podia festejar o Santo António. É que o sogro dela, na casa de quem ela morava, chamava-se António Grandi (1886 - 1970). Ela era casada com o António Piqueno (1926 - 1984). E tem um filho chamado José António… Mas parei logo de rir, para não ser apanhado pelo NTónéco que estava sentado no meu lado esquerdo.
Acudiu-me então uma outra estória que o meu primo Amaral me contara aqui na América, a propósito da “grandéza”(10) da nossa gente na organização de festas. Aí pelos anos de 1971 ou 1972, ele (o Amaral) estava ainda a viver em Cabo Verde e, foi à festa da bandeira de Nhô S. Filipe, em Cova Figueira, festejado, tradicionalmente, no dia 11 de Maio pelo Gonçalvi da Enseada Nha Lena. Nessa festa estava, também, o Armindo Fontes Barbosa, que vivia na Praia por aquelas alturas mas, que tinha ido em missão de serviço para o Fogo. O Gonçalvi um homem simples, coveiro de profissão, tinha providenciado a matança de uma vaca para a festa, aí à frente de todos os festeiros. Então, o Armindo Fontes Barbosa emocionado e, estupefacto com tal cena e com tanta fartura e festança, tomou a palavra e, disse, entre outros: ... Ês quê pôvo di coraçon grandi! Tão grandi cumó burcan di Djarfogo... (11). E, não é que é! Retorqui para comigo.
Todavia, lembrei-me, ainda, dessa impressão que a festa das bandeiras causava em mim na flor da minha meninice: O tambor e os “gritos” das cantadeiras davam-me a sensação de algo de estranho, que nada tinha a ver com a Cova Figueira... O Xóti Mané di Xêpa que era o tamborileiro naquela altura era, por acaso, uma figura que me era estranha pois, ele não era da Cova Figueira. Mas, à medida que fui crescendo, habituei-me ao ritmo das cantigas e às figuras ligadas às bandeiras e passei a admirar o Lim di Dimingo a rufar os tambores e a entrar com o seu assobio que lhe é característico – fino e comprido - no momento certo, como que a dizer à Cova Figueira que a festa é rija e vai durar. Assim, vim a atribuir aquela impressão da minha tenra idade, à figura do Xóti Mané di Xêpa e/ou, ainda, ao facto das manifestações das bandeiras acontecerem talvez um bocado espaçadas no tempo... Recordei também a capacidade de improvisação da Nené di Arcanja que a cantar ia fabricando estórias consoante as personagens com as quais cruzava. Pena, não conseguir lembrar, senão de nomes de pessoas que a Nênê di Arcanja cantou nesses momentos de inspiração!!!
Nota:
(10) Vaidade
(11) Que povo de coração grande! Tão grande como o Vulcão do Fogo... Cláudio A. Henriques Veiga, cveiga2@hotmail.com, Boston.
V PARTE
Perguntei ao tio Dadinho se por acaso sabia em que ano a Nenê di Arcanja nasceu e, também, o ano em que ela faleceu. Ele respondeu-me que n ão e, que, quem poderia dar-me essas informações podia ser a Tia (Avó) Canquinha que completou os cem anos neste mês de Novembro, com uma grande festa no “Hall” (salão de festas). NT ón éco retorquiu que ela, a tia Canquinha, está lúcida ainda e que pode contar-me muita coisa sobre gente antiga, donde é que vêm... Tio Dadinho respondeu que ela está rija, sim, mas, que está a ouvir mal e, que, quem é bom mesmo com as informações sobre gente antiga é o Nhôlá, José Malaquias Monteiro Fontes, de seu nome próprio. O Nhôlá, quando menino, aprendeu com a Nha Mariquinha (1863 - 1964), avó dele pelo lado da mãe, ent ão, ele conhece todas as famílias de Cova Figueira e donde é que vêm, completou.
Fiquei a pensar no Nhôlá que, por acaso, não tive a oportunidade de encontrar desde que passei a viver na América, mas, que sempre me fora recomendado como um conhecedor da genealogia das famílias de Cova Figueira. Uma vez mais, prometi a mim mesmo que tiraria um desses dias para o ir visitar, pois que, para além do mais, foi muito amigo do meu pai, e assim, satisfazer um dever e, porque não, também, um pouco da minha curiosidade e demonstrar-lhe, ainda, a minha admiração pela dedicação que teve, quando menino, para aprender com a
avó a genealogia das famílias de Cova Figueira. Com naturalidade, às minhas recordações, acudiram outras figuras, curiosos e autodidactas, que tive, e tenho, o privilégio de conhecer e que se impuseram em Santa Catarina do Fogo.
Apareceu, primeiro, o Pedro Fonseca Fontes ou, Pedrinho di Vitalina como é mais conhecido. Ele é uma dessas figuras que se impôs no meio Catarinense; um amante do bem falar, das letras, da cultura e da intelectualidade. Um autodidacta de fazer inveja! Ele nasceu em Cova Figueira nos idos anos de 1929 e emigrou para América já adulto no ano de 1970.
Um homem dinômico e activo na sociedade, Pedro Fontes esteve envolvido em várias actividades.
Para além das composições “Cova Figueira
povoação popular” (1950/52), “Agu tem, agu ca tem” (1962), e que atrás citamos, compôs ainda a morna “C ú nha disgosto, n’ ta sufri” (1940) e a coladeira “Primera bez q’um bá pa Bila” (1964/65).
Esteve na organização e encenação do teatro em Cova Figueira nos princípios dos anos cinquenta, em companhia de colegas e amigos como o Arnaldo Barbosa, conhecido ainda por Arnaldo Nha C ôndida (? - ?); o Sabino Lopes Gonçalves, mais conhecido por Sabino Lotinha (1914 - 1993); o Eugénio Fontes, também conhecido por Eugénio Nhaí; o José Santos Fontes, conhecido por Santinho; entre outros. A geração dos meus pais recorda saudosamente uma das peças teatrais encenada por este grupo nos princ ípios dos anos cinquenta, no local que chamavam de Igreja e que fica na parte traseira da casa dos meus avós Xalé e Quina e à frente da casa do Rúja e de Nhaí de Ntónha. Nesta pe ça participaram como artistas o Pedrinho di Vitalina, o Tio Santinho, a Quéta di Tina, o Tio Parromano, a Niquinha di Cúca, o Arnaldo Barbosa, a Codé di Nascimento, o Zezé di Ita, a Antónia di Ita, a Baizinha di Linda entre outros(as).
Esteve, também, com alguns dos amigos já citados, na
organização de grupos carnavalescos em Cova Figueira, isso, nos anos cinquenta a sessenta. E, no mesmo per íodo deu um contributo inestimável para a construção do campo de futebol do “Monti P êládo,” ao mobilizar e dispensar os seus homens, enquanto capatazes de obras.
Apesar de ter apenas a quarta classe escolar, Pedro Fonseca Fontes escreveu n ão s ó letras para a música, como versos e peças jornal ísticas que chegou de publicar no jornal
“O Arquipélago”, em Cabo Verde e, mais tarde, no “Portuguese Times”, em New Bedford, MA EUA, contando e cantando sobre a sociedade de Cova Figueira. Tem guardados contos em crioulo, uns referentes a Eduardo Monteiro Fontes, conhecido por Dadinho di Páchi, avô dele e meu bisavô e gentes desta gera ção e, também, em Português que nunca chegou de publicar. Relíquias, que acabei de descobrir!
Trespassaram, depois, pelas minhas recordações, vários outros nomes que precederam a figura de Pedro Fonseca Fontes. O José Cristiano Fontes, Sr. Fontes, como lhe chamavam ou, ainda, Nhonhô di Fidjinha, (1912 - 1983), como foi conhecido por próximos; o Pedro Vieira Fonseca, conhecido por Néco di Bia (1904 - 1972); o António Pedro Fonseca também chamado por Bêlógiou, ainda, por Antoninho di Bia, (1910 - 2001).
Os três frequentaram o liceu no antigo Seminário de S. Nicolau e exerceram a actividade de professorado, por vários anos, em diversas localidades de Cabo Verde. O Nhonhô di Fidjinha, um “quinto-anista” como dizia o povo em Cova Figueira, foi um professor afamado nesta
povoação, tendo leccionado ainda em Forno e em S. Filipe e, também, foi prosador de renome; o Néco di Bia e o Antoninho di Bia foram dois irmãos, filhos do padre Ambrósio, um homem culto e amante da escola. Eles foram professores de várias gera ç ões na Cova Figueira, entre as quais a minha; o Néco foi ainda professor em Achada Grande/Corvo dos Mosteiros e o Antoninho di Bia leccionou o ensino primário, também, em Calheta de Santiago de 1941 a 1952 e, em Juncalinho e Queimadas de S. Nicolau, de 1952 a 1959.
Recordei, ainda, o Sabino Lopes Gonçalves ou Sabino Lotinha (1914 - 1993) como era chamado por todos. Irreverente, bem-falante, amante da
música e dos cavalos. Sabino foi um grande activista cultural, desportivo e, tamb ém,político.
Todos eles foram figuras dos anos trinta a sessenta e por serem originários de Cova Figueira e parentes, todos eles contribuíram enormemente para transmitir-me, ainda na minha infôncia, aquele sentimento de orgulho de pertença à comunidade catarinense.
Lembrei-me ainda de outro autodidacta exemplar de Santa Catarina do Fogo, um companheiro predilecto de “troca de impressões” aqui na Am érica, um amigo de infôncia, o Joaquim Fontes, mais conhecido por Quinquin di Canquinha.
Natural de Cova Figueira, nasceu no ano de 1949, sofre de distrofia muscular, uma doen ça que começou a atacar-lhe as células dos m úsculos, tinha ele os sete anos de idade. A pouco a pouco, viu reduzir-se a locomo ção pelos seus próprios meios até que, aos dezasseis anos de idade, viu-se obrigado a socorrer-se da cadeira de rodas.
Homem de carácter forte, determinado e inteligente, Quinquin, por causa da doença, não pôde ir além dos estudos primários na escola formal. Contudo, por iniciativa e esforço próprios, em 1963/1964, fez um curso de Inglês pela rádio, através da famosa estação da BBC e, entre 1970 e 1973, fez um curso de
electrónica por correspondência. Assim, por largos anos, Quinquin foi o único dotado de um certificado ao qual se recorria para
traduções de documentos do Inglês para o Português e, particularmente, para concerto e reparação de aparelhos de rádio e de relógios, na ilha do Fogo.
Foi o primeiro, tamb ém, a captar as emissões televisivas na ilha do Fogo, isso nos anos de 1974/1976. Captou em Cova Figueira, nesse per íodo, os Jogos Olímpicos de Canadá que, várias pessoas, vindas de quase todas as localidades do Fogo, puderam assistir.
Depois de ter emigrado para os Estados Unidos, em 1978, aprendeu como preparar o imposto sobre os rendimentos deste Pa ís (o Income Tax), aprendeu os of ícios de Notário Público e tirou a respectiva licen ça, assim como a licença de Juiz de Paz. Há anos que vem ajudando a comunidade cabo-verdiana, entre outras, de língua portuguesa, com os serviços ligados a casamentos,
emigração, preenchimento de impostos,
procurações, etc...
Quinquim é uma figura de se tirar o chapéu e Santa Catarina do Fogo deve-lhe a divulgação destacada das suas informaç ões através do portal criado na internet, sob o endereço WWW.Topicos123.com todo concebido e executado por ele. Foi um apoiante incondicional da elevação de Santa Catarina a Concelho e é um lutador incansável para o seu desenvolvimento.
Pensar em Quinquim fez-me lembrar que ainda tinha de ir at é Randolph, a cidade onde ele mora, à casa da minha irm ã Estef ônia. Levantei-me e despedi-me do NT ón éco dizendo-lhe que da pr óxima haver íamos de continuar esta conversa sobre os peritos de marca ções de terrenos porque a havia achado interessante e, com outro aperto de mão, despedi-me do Tio Dadinho, formulando um... vemo-nos no próximo fim de semana.
E despeço-me, também, dos leitores, marcando o nosso derradeiro encontro, com essas recorda ç ões, para a próxima 5.ª Feira.
Cláudio A. Henriques Veiga, cveiga2@hotmail.com , Boston.
VI PARTE
Já no carro, a caminho de Randolph, dei comigo a questionar-me se as minhas recordações sobre as figuras de Santa Catarina do Fogo teriam ingredientes para constituir uma boa crónica. Decidi que o prazer que as recordações de tais personagens me proporcionam é tal que, certamente, encontrarei os melhores ingredientes. O meu maior problema, pensei, ser´ talvez seleccionar os ingredientes que melhor caracterizam as personagens, as histórias e as estórias. Mas ingredientes e personagens não me hão-de faltar. Preocupei-me, também, se não acabaria por fazer injustiça, passando ao lado de figuras que talvez até desconheça, ferindo susceptibilidades e criando indesej´veis conflitos. Decidi, não se pode censurar a inspiração com demasiadas preocupações. O melhor que posso fazer, concluí, é deixar esta estória em aberto, e esperar que, de forma igualmente fraterna, surjam outras figuras e/ou outras histórias e estórias.
Não obstante, enquanto chegava a estas conclusões, j´ a minha cabeça fervilhava à busca de figuras que porventura tivesse esquecido. A pouco a pouco, não sei se por estar na “Estrada 28”, a conduzir em direcção a Randolph, veio-me à lembrança a imagem da estrada que leva ao “Monti Pêl´do”, nome do campo de futebol da Cova Figueira. Então, em catadupa, sucederam-se uma série de recordações de figuras e de histórias e estórias, todas ligadas ao futebol da Cova Figueira. Na verdade, antes do “Monti Pêl´do”, as partidas de futebol realizavam-se na “Quem´da B´xo” em Cova Figueira, à frente da casa do Branquinho.
Tio Santinho, um grande amante do futebol, ferrenho adepto do Santos do Pelé, do Brasil e do Sporting de Portugal não consegue, ainda hoje, assistir pela televisão nem ouvir o relato pela r´dio dos jogos da equipa que apoia, tal é a emoção que se apodera dele. Ali´s, todas as vezes que uma dessas equipas de que ele é adepto joga, ele arranja sempre desculpas para se isolar (tem sempre um pequeno aparelho r´dio na mão ou, no bolso) e reaparecer com o golo da sua equipa ou, como é mais frequente, com a vitória final.
Acompanhando a figura do Tio Santinho, apareceram figuras que nos finais dos anos cinquenta e princípios dos anos sessenta jogavam futebol em Cova Figueira, à frente da casa do Branquinho, e que a minha memória, um a um, foi recordando: Manuel di Tarêxa, Frank Lotinha (Yaúca, era como lhe chamavam), Tio Pedrinho (Pedrinho di Mam´ di nhô Cândido), Lim di Dimingo, Pedrinho Lim (Léléca), X´xi Nascimento, Sabino Lotinha, (um ferrenho adepto dos Belenenses de Portugal que chegou a jogar no Sporting dos Mosteiros), Jorge Maurício, Maninho di Mano Tchôtchô, Nhônhô di Panôta, António Chimento, João di Mamanzinha, (1940 - 1969), Valdimiro Maria Dina, Orlando Nogueira, Tio Búrbúr, Arlindo Nh´nha, João di Djéca, Tio João, como ´rbitro ou fiscal de linha, e gente mais nova como o Guédes di Micia, Frank Moisés, Eurico Nenêzinha, José Pedro di Djédjé, Nhônhôzinho di Catrina (Cuquinha) entre outros.
Arlindo di Nh´nha e João di Djéca eram dois esquerdinos que a minha lembrança guardou como dois homens de pontapés forte, sobretudo quando bombeavam a bola. Tio João, também conhecido por Féré, (1927 - 2004), marcou-me com aquela imagem, hoje saudosa, do ´rbitro parcial que pendia com a cabeça, e inclusive, com o corpo todo, para o lado que ele queria que a bola fosse.
A esta geração de homens, jogadores e amantes do futebol, devemos não só a tradição da pr´tica desta modalidade, no meio Figueirense, como o campo de “Monti Pêl´do”, em Cova Figueira. Todos eles, entusiasmados pelo Jorge Maurício que na altura era professor em Cova Figueira, conseguiram o terreno cedido por Pedro Veiga e Maria Medina Henriques Veiga. Depois o terreno foi ampliado com uma parcela colocada à disposição pelo casal Pedro Vieira Fonseca, (Néco Bia) e Guilhermina Vieira Fontes Fonseca (Nhamina Sandjon) (1910 - 2003), aí em “Monti Pêl´do”. Mais tarde, obtiveram apoio em equipamentos e homens junto das autoridades respons´veis pelas construções de estradas. O Pedrinho di Vitalina, que na altura era capataz num dos troços de estrada ai perto, deu um apoio inestim´vel. Em regime de trabalho a tempo parcial, e algum trabalho volunt´rio, andaram por mais de um ano a construir o campo “Monti Pêl´do”.
Não pude deixar de recordar os jogadores de futebol da Cova Figueira na companhia dos quais experimentei momentos inolvid´veis na pr´tica desta modalidade: Luther Veiga, Nélinho Lilim, César Maninha, Amaral Veiga, Caló Fontes, Alcides Veiga, Salvador, Walter Veiga, César Lubrano, Pedro Paulo Veiga, Xóti Pires, Zito Veiga, Pedrinzinho Veiga, Daniel Fonseca, Pinto Veiga, Xalé Fontes, José Luís (Kar´), Luís Veiga, Candinho Veiga, L´u Fonseca, Gregório Pires, Distéfano Veiga. De todos guardo profundas recordações mas assaltam-me duas lembranças: a primeira, o grande faro e sentido da baliza do Distéfano, um pequerucho naquela altura, mas, oportuno a marcar golos como jamais presenciara. Mais tarde, Distéfano só não foi ao Alvalade, para integrar a equipa do Sporting porque o cunhado Virgílio, com quem vivia nos primeiros anos em que emigrou para os Estados Unidos, assim não quis; Sporting chegou a convid´-lo, numa das deslocações que fez para os Estados Unidos para jogar contra a selecção da LASA (12) de que Distéfano era um jogador destacado; a segunda lembrança, a segurança que sentia na equipa quando tinha a jogar o Walter (13) e o Pedrinzinho, na defesa, o Xalé e o Candinho, no meio campo. Esses quatro jogadores eram autênticos tampões, a bola não passava e, ao mesmo tempo, grandes armadores de jogo. Durante toda a primeira metade dos anos setenta, o Xalé, o Candinho e eu íamos regularmente da Praia, passar as férias grandes escolares, a Cova Figueira, e então, integr´vamos a equipa local para disputar jogos com outras equipas e localidades do Fogo.
Orgulha-me recordar que, de todos os jogos em que participei, durante esse tempo todo, Cova Figueira não perdeu senão contra o Botafogo, em S. Filipe, um jogo em que and´vamos desfalcados de alguns dos nossos melhores jogadores, e que também muito me marcou, porque joguei com uma distensão muscular na perna direita, uma dor que jamais consegui apagar da minha memória. Ganh´mos sempre nos jogos disputados em casa, no “Monti Pêl´do”, onde dispúnhamos do apoio total do povo de Cova Figueira e de Santa Catarina. Crianças, jovens, adultos, mais velhos, homens e mulheres, todos rumavam ao “Monti Pêl´do” nos dias em que recebíamos advers´rios vindos de outras localidades. Era um apoio incondicional, de todos, sem distinção nem divisão... O povo e a alegria do povo dava-nos mais energia e o brio de jogar bem. Eu sentia um enorme contentamento e uma motivação extra quando via senhoras como a Nenêzinha di Pinina carregar ´gua para o “Monti Pêl´do” para distribuir para os jogadores. Sentia-me apoiado e em comunhão com a minha gente. Momento algum em minha vida conseguiu apagar recordações tão alegres e tão reconfortantes, junto com a minha gente. Festej´mos muitas vitórias. Juntos, em comunhão com as nossas recordações e figuras, com a nossa história, com as nossas gentes, conseguiremos outras vitórias, e construiremos outras figuras e outras estórias, para o melhor porvir de Santa Catarina.
Para todos os filhos e amigos de Santa Catarina do Fogo, votos sinceros de Boas Festas de Santa Catarina! Cantemos, então, em uníssono o nosso hino, Cova Figueira povoação popular (*) legado por Pedro Fonseca Fontes (Pedrinho di Vitalina).
I
Cova Figueira, povoação popular
De lindas cores e tudo o mais
No seu seio a todos há-de encantar
Moças bonitas coisas banais
Refrão
É terra de encanto e de luz
É terra que tudo seduz
Risonha e modesta
Em dias de festa
II
Cova Figueira povoação popular
De lindas flores e tudo o mais
No seu seio a todos há-de encantar
Moç as bonitas coisas banais
Refrão
É terra de encanto e de luz
É terra que tudo seduz
Risonha e modesta
Em dias de festa
III
Amanhã é dia de festa
Nesta terrinha com esplendor
Raparigada dançai, dçnçai que há-de brilhar a nossa festa
Rapaziada cantai, bailai com alegria e com amor
Refrão
É terra de encanto e de luz
É terra que tudo seduz
Risonha e modesta
Em dias de festa
(*) Inserida neste espaço graças à amável colaboração do filho do autor, o José Pedro Fontes, Colácho.
Notas:
(12) Luso American Soccer Association: Associação Luso-Americana de Futebol
(13) Walter é o pai do Zico que integrou a equipa de Cabo Verde dos sub-19, nos Jogos Lusófonos em Macau, e que foi o melhor marcador da nossa selecção nestes jogos.
Cláudio A. Henriques Veiga, cveiga2@hotmail.com , Boston.
FIM
COMENTÁRIO
Passei durante esses dias que o amigo e primo Claudio contou o passado vivido pelo nossos antepassados, e o presente que estamos vivendo, conclui, e com razão, que os que dizem que a fé move montanhas, é mesmo um dito verdadeiro.
Eu de tudo o que é positivo gosto, mas não gosto do lado negativo das coisas, especialmente quando complica ainda mais a probabilidade da perfeição das coisas “se é que a perfeição existe”. Depois de muita comparação, meditação, e realização cheguei a uma conclusão - que para mim acho satisfatoria – de valorizar sempre o lado positivo das coisas ou das pessoas. No mundo político, adoro todo o que ha de positivo nos partidos politicos. No campo religioso, todo de positivo que ha nas religioes ou seitas religiosas, evidentemente tambem adoro. Porque o bem encontra se naturalmente no positivo.
Ha pessoas que naturalmente vejam o positivo ou negativo duma forma diferente ou duma óptica desigual a minha o que é logico, mas no resultado final, na maioria das vezes, quando se aproveita o lado positivo todos nos beneficiamos.
O grande pensador Norte Americano Martin Luther King Jr., disse uma vez, falando do valor das pessoas e do resultado final. Ele disse: “Se um cantoneiro ou um varredor de rua, fizer o seu trabalho duma boa maneira, ele fica degnificado e está contribuindo com sua parte para o avanço da comunidade, pode até mesmo não dar conta disso, mas para os que apreciam o valor das coisas, o trabalho dele ficou degnificado.”
Quando pensamos em nós mesmos ou na nossa cultura, devemos saber apreciar o positivo e procurar sempre não fazer o negativo, e se fizermos algo de mal, não devemos perdurar o negativo, dessa forma ficamos com mais energia para enfrentar a realidade.
Voltando ao conto do amigo Claudio que me deleitou nessas últimas semanas, recordei de uma passagem que escrevi no site Santacatarinafogo, principalmente sobre a freguesia de Santa Catarina e suas gentes, eu disse, lá praticamente somos todos relacionados, até citei muitos nomes e apelidos, é uma comunidade que toda gente conhece um ao outro e todos estão interligados duma forma ou outra, isso veio de alguns séculos passados, todos alegramos e todos sofremos e todos beneficiamos, mas o que não devemos fazer é fazer demarcação.
A nossa comunidade precisa de todos nós, principalmente quando ainda estamos sendo alvos de criticas negativas; com mais compreensão, tolerancia, integridade e bom trabalho, poderemos fazer com que a nossa Freguesia seja cada vez mais um lugar digno para todos.
Claudio um obrigado pelo conto e trabalho iniciado. Quinquim
Trigéssimo dia da morte de Heitor de Andrade
Costuma-se dizer que não há pessoas insubstituíveis, o que é uma grande verdade, visto que o tempo ou as circunstâncias se encarregam de executar tal tarefa. Também, não é menos verdade que há pessoas que, sobressaem numa sociedade pela forma como se relacionam com os outros e pelo trabalho que realizam em proveito da mesma, muitas vezes, com tanta paixão e entrega sem que se apercebam dos prejuízos que causam a si e aos seus familiares, tal é a sua envolvência!
É por essa razão que, cientes de que estamos a ser justos, queremos homenagear a pessoa que toda a Freguesia de Santa Catarina do Fogo conheceu, o qual deu de si o melhor que possuía. Trata-se de Heitor de Andrade, vulgo Artur de Venâncio, de 91 anos de idade, falecido em 27 de Dezembro de 2007, deixando viúva D. Jesuína Andrade. Era pai de 5 filhos. O mais velho, António Andrade, faleceu em combate em Angola.
Cabo-chefe e professor do ensino primário em Achada Furna, onde vivia, foi nomeado, nos finais dos anos cinquenta do século passado, Regedor da Freguesia de Santa Catarina do Fogo. Para cumprir a sua missão, mudou, deixando lá toda a família, para Cova Figueira, onde funcionava a Sede da Regedoria, com todas as consequências possíveis e imagináveis. Visitava a família aos fins-de-semana, fazendo-se transportar numa mula sua pertença. Exerceu as suas funções num período de grande dificuldade em que a seca e a fome estavam presentes. Lembremos que em 1959, morreram de fome em Cabo Verde, 10.000 pessoas.
De carácter simples, humilde, respeitador, justo, tolerante, afável, atencioso, Nhô Regedor, granjeou desde o início, a simpatia, o respeito, admiração e a amizade de toda a Freguesia e por ela dedicou toda a sua inteligência, o seu trabalho e dedicação contribuindo decisivamente para atenuar o sofrimento das pessoas mais necessitadas. Estava em toda a parte e sempre que a sua presença fosse necessária, nomeadamente no tocante ao abastecimento de água, a partir de Chã das Caldeiras, passando por diversas localidades, onde além de roturas normais havia violações das condutas e tanques, na distribuição de rações de alimentos aos mais necessitados, no apoio alimentar aos alunos de zonas mais afastadas, no alistamento das famílias nos trabalhos de estradas, etc.
A regedoria funcionava num anexo à Aguadinha, junto à Casa Escola, local onde as pessoas iam buscar água, todos os dias à tarde, gerando imenso barulho, coberto de telha lusalite, um espaço exíguo, húmido, pouco iluminado pelo sol e sem nenhum conforto. Tinha uma mesa, uma máquina de escrever, um carimbo, algumas desconfortáveis cadeiras e pouco mais. À noite, quando era necessário trabalhar até mais tarde, dispunha de uma lanterna tipo petromax. Também lá funcionava o registo de trabalhadores de estradas e escrituração das folhas de pagamento, feito por uns quantos apontadores escolhidos dentro das pessoas de famílias menos necessitadas, demonstrando com a sua acção uma vez mais o respeito que todas as pessoas lhe mereciam.
Na Casa Escola, proferiu, por ocasião da visita do então Presidente da República, Almirante Américo Tomáz, em 7 de Fevereiro de 1968, um comovente, vibrante e eloquente discurso, tendo sido aplaudido vigorosamente por todos os presentes.
Quanto aos meios de comunicação, dispunha de um telefone de indução, a partir do posto dos Correios, para comunicar com a Administração, que raramente funcionava porque normalmente estava avariado. Qualquer assunto urgente era tratado através de uma ordenança, normalmente pago com o correspondente a um dia ou dois de trabalho na estrada conforme a hora do dia em que o seu trabalho fosse requerido.
Heitor levantava-se muito cedo e iniciava o seu dia de trabalho, normalmente, com uma breve passagem pela loja do Djédjé, trocando impressões com as poucas pessoas que a essa hora lá se encontravam, interrompia para o almoço e retomava por alturas da distribuição de água. Que desolação quando essa distribuição não se podia fazer pelas razões atrás apontadas !
Vibrava sempre que o pluviómetro, situado no canto esquerdo da Aguadinha, instrumento destinado a medir a quantidade de chuva, em milímetros ou litros por metro quadrado, durante um período de tempo, estivesse com a caneca com bastante água, pois melhor que ninguém ele sabia o que significava um ano de boas as-águas. Também o fazia quando chegavam boas notícias acerca das chuvas noutras localidades da Ilha.
De um trato irrepreensível, Nhô Regedor, como todos nós o tratávamos, sempre bem disposto, firme no seu posto, agradava a todos, mesmo aqueles que tinham algumas razôes de queixas, aos quais nunca deixava sem a promessa de resolver ,e resolvia, os seus problemas.
Mais tarde, nos anos 70 a regedoria mudou para um local menos desconfortável, hoje sede da Polícia local.
Além de toda a sorte de trabalhos que as suas funções lhe exigiam, Heitor de Andrade voltou a leccionar em Cova Figueira e, os seus discípulos, garantem, que superaram sem dificuldades os concursos a que mais tarde se sujeitaram.
Pelo exposto, consideramos ser justa a homenagem que aqui prestamos ao último regedor de Santa Catarina do Fogo, um homem bom, justo e exemplar.
Deus lhe dê o eterno descanso !
Deus dâ Nhô iterno discansu !
Deus dá bocê itern discónse !
Deus dâ Nhu iternu diskansu !
Rest in peace , Nhô Regedor !
JOSE FONTES (COLACHO) / MORGADO FONSECA
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ORTOGRAFIAS ![]()
por Manuel Mendes de Carvalho (1990, com algumas notas de
actualização, 1996)
O conteúdo desta página é o seguinte:
Introdução
O Acordo Ortográfico de 1986 era um bom acordo. Apesar de moderado, era um
bom passo em frente no caminho da reunificação ortográfica com o Brasil. Mas
sucumbiu à histeria ignorante e exibicionista de uns quantos e à cumplicidade
doutros. Como consequência, fez-se este ano nova tentativa, bastante pior, e
menos coerente. E o curioso é que já há quem, sem pudor, critique no Acordo de
1990 defeitos que resultaram das cedências às críticas de 1986. Receio mesmo que
de novo se desencadeiem violentas reacções às ligeiríssimas modificações agora
propostas, e, por isso, julgo que talvez valha a pena chamar a atenção para um
certo número de factos. Pode ser que assim contribua para reduzir a emissão de
disparates e para evitar que a discussão desça abaixo de níveis aceitáveis.
Primeiro facto. O objectivo do Acordo de 1986 não era
modificar por modificar, mas apenas alterar o indispensável para conseguir a
quase unificação da ortografia nos países de língua portuguesa. Se não houvesse
pronunciadas diferenças entre as ortografias de Portugal e do Brasil, as
reformas poderiam, então sim, considerar-se escusadas.
Segundo facto. Em questões de ortografia, é falso que
Portugal tenha uma história de cedências ao Brasil. O contrário é que é
verdadeiro.
Terceiro facto. Mexer na ortografia não é mexer na
língua. Todas as palavras continuarão a ser pronunciadas (mal ou bem) como até
aqui e a sintaxe continuará, sem mudança, sujeita aos mesmos pontapés de antes.
Quarto facto. Mudar a ortografia não implica mudar
instantaneamente todos os livros de estudo, nem mesmo os dicionários. Essa
mudança será gradual, feita ao longo de anos.
Quinto facto. A evolução da ortografia é sempre feita de
cima, por especialistas, e, quase sempre, por decreto ou portaria.
Sexto facto. Tem havido, e continua a haver, reformas
ortográficas em numerosos países, incluindo Portugal, algumas delas muito
mais radicais que as tímidas propostas que agora nos fazem.
Sétimo facto. A demagogia, às vezes, é castigada. O que
se segue ajudará a documentar estes factos.
História da
ortografia em Portugal e no Brasil
A história da ortografia da língua portuguesa pode dividir-se em três
períodos:
- fonético, até ao século XVI;
- pseudo-etimológico, desde o século XVI até 1911;
- moderno, desde 1911 até hoje.
Quando a língua portuguesa começou a ser escrita, quem escrevia procurava
representar foneticamente os sons da fala. Esta representação, no entanto, nunca
foi satisfatória. Por um lado, não havia norma e, assim, por exemplo, o som
/i/ podia ser representado por i, por y, e até por h
(1);
a nasalidade por m, por n, ou por til, etc. Por outro lado,
a ortografia conservou-se em certos casos antiquada em relação à evolução da
pronúncia das palavras, como em leer (ler) e teer (ter). Nos
documentos mais antigos, de qualquer modo, o que se observa é a procura de uma
grafia fonética. Com o decorrer do tempo, esta simplicidade foi desaparecendo
por causa da influência do Latim. Assim, começaram a aparecer grafias como
fecto (feito), regno (reino), fructo (fruito), etc.
Realmente, uma das características do Renascimento foi a admiração pelos tempos
clássicos e, em particular, pelo Latim. Isso consolidou, por assim dizer, e
levou ao extremo a influência daquela língua na escrita do Português. Daqui
resultou o aparecimento de inúmeras consoantes duplas, o aparecimento dos grupos
ph, ch, th, rh, que antes praticamente ninguém
usava. Por outro lado, já nesse tempo, tal como hoje, a ignorância e o
pretensiosismo se aliavam para produzir os maiores disparates, tais como, por
exemplo, lythographia, typoia, lyrio, etc. (2)(3).
É por esta razão que se chama pseudo-etimológico ao período em que esta
tendência se impôs. Isto é, queria-se pretensiosamente fazer etimológica a
ortografia, mas a ignorância não deixava ir além da pseudo-etimologia. Além
disso, segundo J. J. Nunes (4),
"por este processo [o da procura da grafia etimológica] recuavam-se bastantes
séculos, fazendo ressurgir o que era remoto, e punha-se de lado a história do
nosso idioma...".
Deve-se dizer que cedo começou a haver reacções simplificativas. Por exemplo,
Duarte Nunes de Leão, um dos primeiros gramáticos portugueses, reprova a
pseudo-etimologia nascente em "Ortographia da lingoa portuguesa", livro
de 1576. Outro gramá- tico que se opôs a esta ortografia complicada foi Álvaro
Ferreira de Vera, no seu livro "Ortographia ou arte para escrever certo na
lingua portuguesa" (1633) (5).
Também D. Francisco Manuel de Melo (século XVII) usou, pelo menos na sua obra
"Segundas três musas do Melodino", uma ortografia simplificada em que
quase não havia consoantes dobradas, o ph era substituído por f, e
o ch com som /k/ era substituído por qu (pharmacia
-> farmacia, Achilles -> Aquiles) (3).
No século seguinte, o XVIII, o célebre Luís António Verney apresentou também
a sua proposta de ortografia simplificada e, mais do que isso, publicou nessa
ortografia a sua grande obra "O verdadeiro método de estudar".
O que é certo, porém, é que, na quase totalidade dos escritos, principalmente
a partir da publicação em 1734 da "Ortographia ou arte de escrever e
pronunciar com acerto a lingua portugueza" de João de Morais Madureyra
Feyjó, se procurava a grafia mais complicada. Note-se, no entanto, que, apesar
de tudo, o número de acentos era bastante restrito e empregue em casos e para
fins algo diferentes dos actuais.
No princípio do século XIX, também Garrett defendia a simplificação
ortográfica e criticava a ausência de norma. Nesse mesmo século proliferaram os
pretendentes a reformadores da ortografia. Além de Garrett, pode-se mencionar,
por exemplo, Castilho, como um dos mais conhecidos.
No decorrer do século XIX, começou a compreender-se a falta de justificação
de muitas das grafias complicadas que então se usavam, mas, por outro lado,
caiu-se no extremo de, mesmo aqueles sem quaisquer habilitações para tal,
desatarem a simplificar disparatadamente. O resultado foi que, no fim do século
XIX, a desordem ortográfica era total. Cada um escrevia como lhe parecia melhor.
Assim, em 1911, o Governo nomeou uma comissão para estabelecer a ortografia a
usar nas publicações oficiais. Desta comissão fazia parte o insigne foneticista
Gonçalves Viana, que já em 1907 apresentara um projecto de ortografia
simplificada. O trabalho da comissão consistiu praticamente em adoptar o que
propunha Gonçalves Viana e a nova ortografia foi oficializada por portaria de 1
de Setembro de 1911. Esta reforma da ortografia, a primeira oficial em Portugal,
foi profunda e modificou completamente o aspecto da língua escrita,
aproximando-o muito do actual. Foi, pode dizer-se, uma mudança verdadeiramente
radical e feita sem qualquer acordo com o Brasil. Ao fazer desaparecer muitas
consoantes dobradas, e os grupos ph, th, rh, etc., a
reforma, afinal, fazia desaparecer os exageros do período pseudo-etimológico e
promovia um "regresso" ao período fonético. Por isso, é que, a propósito das
muitas reacções adversas que houve na altura, escrevia J.J.
Nunes (6), em 1918: "Pena é que a ortografia nova, que, em rigor, é velha,
não seja compreendida por todos, ou antes, que se não queira ver a sua justeza,
acabando-se de vez com os desconchavos que ainda perduram, quase sempre
resultantes da ignorância...". Como estas palavras continuam actuais !
O essencial da reforma ortográfica de 1911 foi acabar com o despotismo da
etimologia, aproximando a ortografia oficial de uma escrita fonética.
Aproximando, apenas, note-se, dado que, apesar de tudo, se fizeram vastas
concessões a hábitos anteriores, como era o caso de manter inúmeras consoantes
mudas, com um ou outro pretexto (homem, directo, sciência, etc.).
Um ponto em que a reforma foi incoerente e em que se afastou da tradição dos
primeiros tempos do Português escrito foi a introdução profunda de acentos. Em
particular, passaram a ser acentuadas todas as palavras esdrúxulas, o que não
acontecia antes.
A seguir à reforma de 1911, houve vários ajustamentos efectuados por
portarias de 19.11.1920, 23.09.1929, e 27.05.1931. A grande reforma seguinte foi
a resultante do acordo ortográfico Portugal-Brasil de 1945, a qual, ligeiramente
alterada por um decreto de 1971, deu origem à ortografia oficial que até agora
se usou em Portugal. Note-se, de passagem, que o acordo de 1945 anulou algumas
modificações introduzidas em 1911 e 1931.
Vejamos o que entretanto se passava no Brasil. No século XIX, a ortografia no
Brasil estava no mesmo estado que em Portugal. Pode-se dizer que havia
unidade... no caos.
Em 1907, a Academia Brasileira de Letras tivera em estudo um projecto de
reforma análogo ao de Gonçalves Viana, que, como vimos, levou à reforma
portuguesa de 1911. Neste projecto, embora baseado no do foneticista português,
colaboraram vários brasileiros ilustres, como Euclides da Cunha, Rui Barbosa e
outros (7).
Isto mostra que, em ambos os países, há muito se sentia a necessidade de
modificar a ortografia. O mesmo, aliás, se passava noutros países e tinham sido
e viriam a ser feitas reformas em vários deles, como se verá mais à frente.
O projecto da Academia Brasileira de Letras de 1907 acabou por não ir por
diante e, por outro lado, Portugal cometeu o absurdo erro de avançar sozinho
para a reforma. Assim, e apesar de a reforma portuguesa ser defendida sem
alterações, para uso no Brasil, por filólogos brasileiros do calibre de Antenor
Nascentes e Mário Barreto, o certo é que, durante alguns anos, ficaram os dois
países com ortografias completamente diferentes: Portugal com uma ortografia
moderna, o Brasil com a velha ortografia pseudo-etimológica.
Foi em 1924 que as duas Academias, a Brasileira de Letras e a das Ciências de
Portugal, resolveram procurar uma ortografia comum. Claro que, para isso, o
Brasil teria que se aproximar de Portugal, que, na altura, caminhava na frente.
Houve em 1931 um acordo preliminar entre as duas Academias, em que se adoptava
praticamente a ortografia portuguesa. Assim se iniciou o processo de
convergência das ortografias dos dois países com um reconhecimento quase total,
por parte do Brasil, da superioridade da ortografia portuguesa. Contudo, os
vocabulários que se publicaram, em 1940 (Academia das Ciências de Portugal) e
1943 (Academia Brasileira de Letras), continham ainda algumas divergências. Por
isso, houve, ainda em 1943, em Lisboa, uma Convenção Ortográfica, que deu origem
ao Acordo Ortográfico de 1945. Este acordo tornou-se lei em Portugal pelo
Decreto 35 228 de 08.12.45, mas no Brasil não foi ratificado pelo Congresso; e,
por isso, os Brasileiros continuaram a regular-se pela ortografia do Vocabulário
de 1943.
Em 1971, novo acordo entre Portugal e o Brasil aproximou um pouco mais a
ortografia do Brasil da de Portugal. Tratou-se de cedência brasileira, mais uma
vez. O acordo teve a sorte de ser oficializado sem burburinho. Note-se aqui que,
do ponto de vista absoluto, ambas as grafias eram nesta altura perfeitamente
razoáveis e sua única desvantagem era apresentarem ainda algumas diferenças. Não
fosse isso, seria, de facto, inútil "mexer" mais.
Em 1973, recomeçaram as negociações e, em 1975, as duas Academias mais uma
vez chegaram a acordo, o qual "não foi contudo transformado em lei, pois
circunstâncias adversas de vária ordem não permitiram uma consideração pública
da matéria" (8).
Em 1986, o Presidente José Sarney tentou resolver o assunto, que há longo
tempo se arrastava, e promoveu o encontro dos sete países de língua portuguesa
no Rio de Janeiro. Deste encontro, mais uma vez saíu um acordo ortográfico e
mais uma vez o acordo não foi por diante, devido a um surpreendente alarido que
se levantou em Portugal. Este alarido, longe de ser resultado de defeitos do
acordo, deveu-se sobretudo a uma confrangedora ignorância do assunto por parte
dos pouco ponderados adversários da união ortográfica. Mas a verdade é que o
acordo foi suspenso.
O pior é que se concluiu este ano novo acordo, dito "mais moderado", mas na
verdade mais incoerente, e exposto, este sim, a críticas com fundamento. Os
responsáveis portugueses pelo Acordo de 1986, que garantia uma unificação quase
total da ortografia da língua, cederam aos auto-proclamados donos da Cultura
Nacional e, agora, em 1990, produziram um acordo imperfeito, que não unifica,
cheio de grafias duplas, defeitos estes que são deslealmente aproveitados pelos
detractores que os causaram. É o castigo da demagogia. Enfim, se encarado como
transitório, como mais uma pequena dose de mudança sem dor para não assarapantar
o profanum vulgum, este acordozito é um passo na direcção certa. Para
mim, no entanto, o método correcto seria fazer a unificação total de uma só vez
e liquidar definitivamente o problema.
Reformas e acordos
ortográficos noutras línguas
Contra o que tem sido afirmado, não têm faltado reformas ortográficas na
historia das principais línguas civilizadas. Percorramos algumas dessas línguas.
Espanhol. "A ortografia do
Espanhol medieval é uma descrição fidedigna da língua, tal como ela era falada
nos círculos culturais de Toledo por volta de 1275. Essa representação gráfica
começou a ser defeituosa pelos fins do século XV...[O gramático] Nebrija
[séculos XV e XVI] reafirmou o princípio fonético de que a língua se deve
escrever como se pronuncia. Por esta época, os humanistas tinham começado a
insistir na etimologia... Nos séculos XVI e XVII, tendo-se produzido mudanças
consideráveis de pronúncia, a ortografia espanhola apresentava diversas
anomalias, o que levou a Academia da Lingua a começar a adoptar um controle
oficial da língua no século XVIII" (10).
Sucessivas reformas, a última das quais em 1815, acabaram por conduzir à
ortografia actual, que é praticamente fonética. Os países de língua espanhola
usam, de um modo geral, a mesma ortografia, mas a união ortográfica está longe
de se poder considerar definitivamente resolvida. Tem havido acordos, princi-
palmente com a Argentina, que participa activamente nas discussões, e o Chile,
que de 1822 até 1938 já apresentou 18 propostas de reforma ortográfica. Por seu
lado, a Espanha, preocupada com a manutenção da unidade da língua espanhola no
mundo, vai retardando as decisões. Em vários casos, a Espanha tem aceitado
propostas de uma das suas antigas colónias, como foi o caso em 1952, em que
certas tolerâncias propostas pela Argentina foram adoptadas pela Espanha e
outros países de língua espanhola (11).
Italiano. O italiano moderno
(e a correspondente ortografia) são obra, algo artificial, por assim dizer, de
Alessandro Manzoni (1785-1873), que escreveu, na forma que recomendava e que
vingou, o célebre romance I promessi sposi, considerado uma das mais
notáveis obras da literatura italiana. Com a língua italiana praticamente
concentrada num só país, não há necessidade de acordos internacionais.
Alemão. A escrita actual,
baseada em Lutero, com a sua célebre tradução da Bíblia, em Freyer (1722) e
Adelung (1788), é o resultado de acordos oficiais de 1876, 1901, 1920, 1954,
etc., entre os países de língua alemã. Apesar destes acordos, também nada ainda
é definitivo. As reuniões internacionais têm continuado: 1958 (Wiesbaden
Empfehlungen), 1973 (Wiener Empfehlungen), 1978, 1980. Na última reunião
internacional de que tenho conhecimento, em 1986, em Viena, participaram a
Bélgica, a RFA, o Tirol italiano, o Liechtenstein, a Áustria, a Suíça, a RDA, o
Luxemburgo e a Alsácia. As discussões têm sido agitadas e ainda não se alcançou
a estabilidade. Como exemplo de pontos em discussão, anotem-se as numerosas e
complicadas regras do uso da vírgula, as maiúsculas dos substantivos, a
eliminação de consoantes mudas e de vogais duplas, etc. Ficou prevista para este
ano nova reunião. [Nota em 1996: Em Julho de 1996, firmou-se em Viena um
acordo entre os países de língua alemã sobre as novas regras de ortografia, as
quais devem entrar em vigor em 1 de Agosto de 1998. Consultar
página de actualização sobre ortografia alemã].
Holandês. Na Holanda, por
volta de 1900, a ortografia sofreu uma reforma radical, mexendo mesmo com a
própria gramática. Até nomes de localidades foram revistos. As discussões sobre
ortografia, que, tal como entre nós, têm por vezes sido acaloradas, nunca
pararam. Os Flamengos, da Bélgica, cuja língua é o Holandês, adoptaram a
ortografia da Holanda, mas as reuniões e as propostas de reforma ainda não
terminaram.
Russo. A Academia das
Ciências Russa preparou em 1912 um projecto de reforma da ortografia que acabou
por ser adoptado em 1917, a seguir à revolução. Esta reforma envolveu
simplificações profundas, tendo sido eliminadas várias letras do alfabeto. Desde
1939, ano em que foi nomeada uma comissão de linguistas para o estudo de certos
problemas da língua, que são regularmente actualizados os prontuários
ortográficos. Felizmente, tal como para o Italiano, não há problemas
internacionais.
Turco. O caso mais espantoso
de reforma ortográfica parece ser o da Turquia. Aí, o presidente Mustafá Kemal
Atatürk, em 1928, aboliu pura e simplesmente o alfabeto até então usado, o
árabe, e substituiu-o pelo latino. Todas as pessoas, apesar dos protestos dos
reaccionários, tiveram que reaprender a ler. Esta cataclísmica reforma
ortográfica vingou e, para as novas gerações, o alfabeto árabe é tão estranho
como para a população europeia em geral.
Chinês. Depois da última
guerra, o Governo da China Popular simplificou um grande número dos caracteres
que se usam para escrever as línguas da China, no que não foi seguido, nem pelas
autoridades da Formosa, nem pela maioria das comunidades de chineses do
estrangeiro. Assim, mantêm-se até hoje nas duas regiões diferenças ortográficas
significativas. O próprio nome do país se escreve de modo diferente nas duas
ortografias.
Japonês. Os caracteres chineses simplificados foram também adoptados no
Japão, a partir de 1947 (12).
Grego. Em 1986, o Grego
libertou-se finalmente do pesado sistema de acentos que por desgraça lhe caíra
em cima nos tempos da civilização helenística. Uma pesada herança de Aristófanes
de Bizâncio, bibliotecário de Alexandria e filólogo do século II AC.
Francês. A ortografia do
Francês tem variado ao longo dos séculos, quase sempre por saltos bruscos. No
século XVI, a escola de Ronsard levou a grande maioria dos escritores a adoptar
uma ortografia reformada, despojada das numerosas letras mudas inúteis. Foi
nesse século, no entanto, que Francisco I decretou a célebre regra da
concordância do particípio, por imitação do Italiano (regra, aliás, cuja
eliminação está na mira dos reformadores actuais). A primeira edição do
dicionário da Academia, no século XVII, sob a influência de Corneille,
introduziu novas reformas. No século seguinte, a edição de 1740 do mesmo
dicionário dava ortografia nova a nada menos de 2000 palavras das 3000 que o
compunham. A ortografia actual do Francês fixou-se na forma actual por volta de
1830. A norma foi fixada na 6ª edição do Dicionário da Academia, de 1836. Desde
o princípio deste século, porém, já em três ocasiões se iniciaram movimentos de
reformas ortográficas: em 1901, em 1965 e em 1988. Em 1901, a reforma foi
patrocinada por escritores como Anatole France, Georges Leygues e Ferdinand
Brunot e teve um apoio de tal forma amplo que o Ministério da Instrução chegou a
publicar uma portaria com as mudanças propostas. No entanto, esta portaria
acabou por não ser aplicada, devido à campanha contra a reforma feita pela
imprensa. Em 1965, uma comissão presidida por M. Beslais, ex-Director do Ensino
Primário, apresentou um relatório com nova proposta de reforma. Nela,
defendiam-se transformações do tipo
théatre -> téatre
pharmacie -> farmacie
etc.
Este relatório não teve seguimento, embora em 1975 uma nova portaria
determinasse mudanças ortográficas menos ambiciosas. Esta portaria teve a sorte
da do princípio do século, isto é, o total esquecimento. Apesar de aparentemente
continuarem em vigor, ninguém as cumpre. O debate recomeçou em fins de 1988,
desencadeado por uma sondagem na revista do Sindicato Nacional dos Professores e
foi animado por numerosas tomadas de posição e publicação de artigos e livros.
Dentre as tomadas de posição mais relevantes note-se a do chamado Manifesto dos
dez linguistas, publicado em "Le Monde" de 07/02/1989, que defendia a
necessidade de uma reforma, e a publicação em fins de 1989 de três livros sobre
o assunto ("Le livre de l'orthographe", de Bernard Pivot, "Les
délires de l'orthographe", de Nina Catach, e "Que vive
l'ortografe!", de Jacques Leconte e Philippe Cibois). O assunto foi pelo
Governo julgado suficientemente importante para justificar a nomeação, por
decreto de 02.06.89, do Conseil supérieur de la langue française (CSLF), com o
objectivo de "rectificar" a ortografia. Em fins de 1989, o Governo encarregou o
CLSF de se pronunciar sobre um certo número de pontos concretos. Ao fim de uma
dezena de reuniões, conseguiu-se um acordo, de que participaram a Bélgica, a
Suíça e o Canadá, acordo que foi aprovado pela Academia Francesa. Em 19.06.90,
foi apresentado o relatório do CSLF, a que se seguiram ainda negociações
informais entre a Academia e os serviços do Primeiro Ministro. Finalmente, em
Outubro passado, o CSLF recebeu e aprovou a versão definitiva da reforma.
Pretende-se que seja publicada oficialmente ainda antes do Natal e que entre em
vigor nas escolas a partir do Outono de 1991, embora haja a intenção de tolerar
a antiga ortografia por mais alguns anos. Tudo leva a crer que, desta vez, a
reforma terá destino diferente das que a antecederam neste século.
O que deve ser a
ortografia ideal ?
Há a ideia generalizada de que uma ortografia é tanto mais perfeita quanto
mais fonética for. Ora isto só é verdade até certo ponto. A ortografia
fonética (*)
tem vantagens e inconvenientes e, para cada língua, é preciso fazer a ponderação
dessas vantagens e inconvenientes.
Se se trata de uma língua restrita a poucos falantes e a uma região
relativamente pequena e com boas comunicações, essa língua terá poucas variantes
(ou marcas tópicas, como se diz). Será falada de igual modo por todos. Então, a
escrita fonética é o que mais convém, porque é lógica e permite, mais do que
qualquer outra, ler e escrever sem erros, mesmo aos menos cultos e aos
estrangeiros.
Se, porém, se trata de uma língua mundial como o Português, com um grande
número de falantes e abrangendo enormes territórios com algumas dificuldades de
contactos, já o caso muda de figura. De facto, então, há certamente variantes na
linguagem falada, há inúmeros sotaques regionais, há, enfim, as chamadas marcas
tópicas. E, neste caso, se se vai para a escrita fonética, que variante, que
sotaque, se há-de representar? É que, uma vez escolhida essa variante, a escrita
será fonética para ela, mas não o será para as outras.
Assim, no caso do Português, para escrever foneticamente, por exemplo, o
número 20, poderiam eventualmente usar-se as escritas bint, vint,
vintchi, conforme fosse escolhida a pronúncia do Minho, de Lisboa, ou do
Rio. Isto mostra que, para uma grande língua, a escrita totalmente fonética é
inviável.
Deve-se, então, ir para uma escrita ideográfica, como a chinesa, ou como a
que usa algarismos? No caso dos números, realmente, a escrita com algarismos é
totalmente ideográfica. 20 é entendido por todos os falantes de Português (e de
outras línguas), lendo cada um a palavra correspondente com a sua pronúncia
própria. Esta é uma vantagem da escrita ideográfica; ela é "supratópica". Usar
tal escrita para a linguagem corrente, porém, tem enormes desvantagens, visto
que é colossal o número de símbolos necessários (caso do Chinês).
Por isso, o que há a fazer, para uma língua como o Português, é usar um meio
termo. Devem representar-se as palavras de um modo, não completamente fonético,
mas aproximadamente fonético. Cada palavra terá, então, além das suas
componentes fonéticas (letras e grupos de letras), que correspondem a sons que
podem ser diferentes de região para região, uma individualidade visual, um
aspecto, próprios, que terão de ser reconhecidos por todos. Isso não impedirá
que cada palavra escrita, reconhecida imediatamente por todos os falantes da
língua (os não analfabetos, evidentemente), seja pronunciada de modo diferente
em cada região.
Aceites estes princípios, compreende-se que, em face das grafias do género de
Antônio (Brasil) e António (Portugal), os negociadores do Acordo Ortográfico de
1986 se tivessem decidido pela grafia unificadora Antonio, como, aliás, se
escrevia antes de 1911. Mas não adiantou. As emoções boçais levaram a melhor.
(*) Por ortografia fonética entende-se uma ortografia em que a cada
som corresponda uma letra ou grupo de letras únicos e a cada letra ou grupo de
letras um som único, e, ainda, em que, pelo menos no caso das línguas
indo-europeias, seja assinalada de algum modo a sílaba tónica.
REFERÊNCIAS
- (1) - Nunes, José Joaquim - Compêndio de gramática histórica
portuguesa, Livraria Clássica Editora, Lisboa, 1945, p. 193
- (2) - idem, p. 196
- (3) - Fonseca, Fernando - O Português entre as línguas do mundo,
Livraria Almedina, Coimbra, 1985, p. 326
- (4) - Nunes, José Joaquim - Compêndio de gramática histórica
portuguesa, Livraria Clássica Editora, Lisboa, 1945, p. 196
- (5) - Cuesta, Pilar Vasquez - Gramática da língua portuguesa,
Edições 70, Lisboa, 1980, p. 338
- (6) - Nunes, José Joaquim - Compêndio de gramática histórica
portuguesa, Livraria Clássica Editora, Lisboa, 1945, p. 198
- (7) - Carmo Vaz, Álvaro - Código de escrita, Livros técnicos e
científicos, Lisboa, 1983, p. 112
- (8) - Protocolo de Acordo Ortográfico de 1986
- (9) - Lausberg, Heinrich - Linguística Românica, Fundação
Gulbenkian, Lisboa, 1974, p. 14
- 10) - Entwistle, William - Las lenguas de Espana, Ediciones ITSMO,
Madrid, 1973, p. 194
- (11) - Catach, Nina - Les délires de l'orthographe, Plon, Paris,
1989.
- (12) - O'Neill, P.G. (1978) - Essential Kanji, p.13.
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